Favoritos das premiações 2021 - Parte II

A primeira parte dos comentários sobre alguns dos meus filmes favoritos das premiações de 2021 está aqui! Lá fiz um (não tão breve) comentário sobre algumas questões que me chamaram atenção nos filmes & falei sobre as melhores e - eu diria também - imperdíveis experiências cinematográficas que essas premiações me proporcionaram esse ano. Queria tanto ter visto tudo isso no cinema!

Hoje, na segunda e última parte dessa duologia, falo sobre filmes pra repensar política, a vida e alguns que me tocaram muito pessoalmente.


Filmes pra repensar política

Os 7 de Chicago

Eu acho engraçado, embora entenda tecnicamente as razões, o modo como esse filme passou batido pela maioria das pessoas que vi comentando os prêmios cinematográficos. Entre os filmes ficcionais, este foi definitivamente o que mais me pegou. Eu amo filmes que me comovem com esse apelo coletivo e catártico que esse filme faz. Achei o roteiro tão bem construído nesse sentido que eu duvido que alguém com a mínima afinidade com as ideias políticas da esquerda consiga assistir esse filme sem se sentir indignado. E todos os recursos com mais cara de sessão da tarde da direção e do modo como os personagens são apresentados é que, a meu ver, me fizeram sentir tudo que é preciso sentir em relação ao modo como a direita (que é essencialmente dirigida por homens brancos cis héteros cristãos) se institucionaliza e ataca e criminaliza as esquerdas. O que fica mais evidente aqui é que, moderadas, radicais, cirandeiras ou recolucionárias: as pessoas que se identificam com o espectro político da esquerda precisam se unir tática e estrategicamente, porque o lado de lá não vai abrir mão de um milímetro sequer do domínio que eles têm sobre o estado e vão usar de todo o aparelho disponível pra calar e reprimir tudo que se oponha aos ideais deles.

Nomadland: Sobreviver na América

Bem, gente, tudo que eu posso dizer é que: o como como esse filme corre representa muito da minha visão de mundo e como a vida deveria ser: livre, leve, em comunidades. Mas ao mesmo tempo, o modo como os personagens (alguns dos atores interpretam a si mesmo, se é que é esse o termo tecnico usado) estão sobrevivendo daquele modo nômade quando na verdade deveriam poder escolher viver naquela terra chega a ser aterrador: aquela crise econômica específica que serve de pano de fundo pra trama não é a mesma que todos nós estamos vivendo agora? E nem chegamos ao pior do capitalismo.

Relatos do Mundo

Eu nem tinha curtido muito esse filme, mas ao ouvir esse podcast do Cinematório Café, entendi mais claramente a mensagem política do filme, ainda mais em tempos de fake news, pós-verdade e disputas políticas pelo controle das narrativas midiáticas. Esse podcast também me fez perceber a importância de um Tom Hanks no elenco e como a figura dele já se tornou indissociável de cada personagem que ele interpreta. O roteiro quebra com alguns clichês do faroeste e defende um lado que é normalmente vilanizado nesse gênero de filmes e advoga também pela importância do conhecimento e da verdade para um entendimento mais justo do mundo. De modo bem emblemático, o filme defende que conhecimento é poder e por isso quem está no poder quer o controle das notícias.

Crip Camp

Pra uma pessoa que sempre pulava os documentários do Oscar, chega a ser surpreendente que esse filme tenha sido um dos que mais me marcou. A mensagem desse documentário é muito importante: quem está excluído e distante do poder precisa de unir pra conseguir algo porque, como eu já disse anteriormente no comentário sobre Os 7 de Chicago, quem está no comando se recusa a ceder um pouco desse poder mesmo quando é apenas para garantir direitos básicos a uma parte da população. A razão para este filme vir parar nessa lista e não Collective, que tem uma mensagem semelhante, é que esse documentário é muito sério, indignante mas ele também me deixou muito entretida, envolvida pessoalmente com cada um dos retratados. Achei fascinante o modo como contaram uma história muito importante, de uma luta muito séria de um modo muito divertido sem perder o respeito pela pauta. Nós costumamos olhar para pessoas com deficiência com um olhar superior de pena, mas esse filme escancara o óbvio: somos mais semelhantes do que diferentes, e acho que a grande qualidade do filme é quebrar esse ponto de vista de um jeito leve, que daria pra você mostrar pras tias que acham que pessoas com deficiência são coitadinhas e elas entenderiam fácil que não é bem assim. Não fiz o teste da tia ainda, mas se eu fizer, depois conto pra vocês.

O Tigre Branco

Que filme, que história! Mais um filme de luta de classes pra gente ficar com raiva de gente podre de rica explorando o trabalho dos outros e usando de uma estrutura corrupta que os beneficia pra seguir no poder. O que eu achei mais interessante é como o filme mostra que a culpa burguesa das gerações teoricamente mais politizadas e conscientes acaba encontrando um modo de ser apagado e no fim, se depender da culpa burguesa, nada muda. O que provoca mudanças é ter consciência.

O homem que vendeu sua pele

Achei esse filme com vibes Almodóvar, porém um pouco mais seco e menos lúdico, mais literal do que os filmes do cineasta espanhol. Eu achei a discussão do filme a respeito da arte como forma de política interessantíssima, afinal, no filme um homem vende sua pele pra que um artista completamente afastado da realidade dele represente a sua bandeira política em nome dele. Também pensei muito na terceirização das pautas políticas e a mercantilização da arte e como elas têm se misturado nos nossos dias, distorcendo o real sentido de existir de cada uma dessas coisas.

Collective

Esse filme podia ser sobre o Brasil, mas foi sobre um escândalo político sanitário de um país na Europa. O documentário é cheio de reviravoltas que poderiam ser ficcionais mas a gente sabe como a realidade é muito mais louca, e por ser real, mais cruel que a ficção. 

Judas e o Messias Negro

Bem, eu confesso que assisti esse filme completamente parcial pois eu já estava pronta pra amar qualquer coisa que Lakeith Stanfield fizesse na tela. Claro que ele entregou uma atuação que mostrava apenas com um olhar cada nuance dos dilemas morais que o personagem vivia internamente. Mas eu, que já acho Daniel Kaluuya um grande ator, fiquei muito impressionada com o jeito que ele conseguiu incorporar todo o carisma de um líder dos Panteras Negras de apenas 21 anos que fez coalisões impensáveis, discursos incríveis e tinha uma retórica e a visão política do partido como força motriz das mudanças políticas que propunha. Esse filme, como outros que eu já falei aqui, acaba sendo mais um retrato de como o governo Americano se beneficia da desigualdade social para manipular pessoas que deveriam estar unidas e deixá-las umas contra as outras. Tudo isso porque não querem abrir mão de nada nem mesmo para dar a todos algo muito básico: igualdade. Pra quem ouve podcasts em inglês, recomendo esse aqui, sobre o filme, que tem entrevistas com diretor, elenco, os personagens reais que inspiraram o filme. O podcast Judas and the Black Messiah ainda contaa pra gente um pouco mais sobre o plano de fundo político e histórico dessa história que precisava muito ser contada. O legado de Fred Hampton e dos Panteras Negras deve seguir vivo.


(Eu acho a história dos Panteras Negras muito sensacional e importante. A maneira com que eles se organizavam e as propostas que tinham são inspiradoras e justamente por representar esperança organizada, foram tão duramente combatidos. Então, fico de olho nas referências a eles em qualquer lugar: Em Os 7 de Chicago, um dos homens em julgamento é Bobby Seale, membro e cofundador dos Panteras Negras. Já em Crip Camp, uma breve menção ao partido é feito: Embora muitos setores da sociedade não apoiassem os protestos para a mudança de leis de acessibilidade nos EUA, os Panteras Negras ajudaram diretamente na execução dos protestos documentados.)


Pra ficar olhando pro teto pensando na vida depois que os créditos sobem:

Minari

Este é um filme que fala de maneira simbólica sobre a força das nossas raízes quando estamos em novos solos. Quando acabou, eu não podia parar de pensar que a gente só é o que é porque alguém veio antes de nós e foi o que foi. Sem reconhecer isso, plantamos sementes que não vingam. E, muitas vezes, como no filme, só quando a gente olha pras nossas raízes é que a gente consegue firmá-las no chão em que estamos pisando.

Soul

Nossa, essa animação é tão, mas tão, mas tão incrível! E ela trata de um dos problemas da vida adulta de uma forma tão gentil, sutil e generosa, né? Qual é a nossa vocação? Pra que vimos ao mundo? Existirmos: a que será que se destina? E ao contrário do que muita gente chegou a comentar: criança também tem que pensar isso sim. Ela consegue entender, do jeitinho dela, tudo isso. Mas enquanto adulta, achei mais tocante ainda porque a gente já passou por todos esses questionamentos aí.

Dois irmãos: uma jornada fantástica

As animações, né gente? Sempre aí pra fazer a gente rir e chorar e tudo mais. Bem, o que eu achei realmente fantástico foi a generosidade desse filme na relação entre os dois irmãos. E, sabe, como irmã mais velha, eu me senti muito contemplada por duas coisas: primeiro, o reconhecimento de que irmãos mais velhos acabam tendo sim um papel de proteger os menores quase como se fôssemos vice-pais mas isso poucas vezes isso é sequer percebido por essas criaturas que vieram depois de nós ou pelos nossos pais; segundo, esta é uma história em que, enfim, o irmão mais novo faz algo generoso pelo mais velho com esse paternalismo que nem sei se é certo ou errado, mas que a gente quer receber também, às vezes. A gente só quer ser mimadinho que nem os mais novos mesmo, embora eu esteja sendo simplista dizendo que o irmão mais velho foi mimado com a escolha final do irmão mais novo. E outra coisa: foi muito divertido, e grande parte do mérito foi a dublagem do Tom Holland e do Cris Pratt. Não sei como ficou a dublagem em português e espero que tenha sido tão legal quanto a original.

Professor Polvo

Primeiramente eu sou uma vegana que realmente vê animais como iguais a nós humanos. A gente só não entende os mesmos códigos deles. Pra mim, é como se todos fôssemos da mesma espécie só que falando línguas e vindo de lugares diferentes, então às vezes precisamos de tempo pra nos entender. E, bem, este documentário é exatamente sobre isso! E é emocionante vermos que com o tempo, com o olhar respeitoso, podemos enxergar a grandeza de todas as formas de vida. Acho que foi o que eu mais chorei.

Os que mais me tocaram pessoalmente:

Pieces of a Woman

The United States vs Billie Holiday

Escrevi sobre esses dois filmes aqui. O mundo quer mulheres quebradas, que são mais fáceis de se controlar e embora em contextos completamente diferentes, eu me identifico com esse estado de "estar em pedaços"

On the rocks

O filme não tem nada de extraordinário, mas ele me ensinou uma coisa muito importante sobre a relação entre pai e filha: às vezes é melhor só fazer umas coisas divertidas com seu pai, ou então a gente perde tempo brigando sobre coisas que não iremos mudar um no outro. Eu tenho uma relação difícil com o meu pai e sei que conviver diariamente com ele vai mostrar lados que eu não gosto de ver (e ele certamente se desgosta em ver quem eu sou no dia-a-dia) mas se a gente se concentrar em só fazer coisas divertidas juntas, podemos levar coisas boas um do outro. Ficou essa lição pra mim.

Emma

Eu não sabia do que se tratava, não conheço toda a obra de Jane Austen. Pensei que seria um romance mais sério, mas foi tão divertido, tão leve e tão gostoso de assistir. Tenho precisado muito de bom entretenimento, sem nada de muito profundo, mas bem feito. Então foi uma grata surpresa ver essa comédia tão bem executada. Mas mais do que me divertir o filme ainda aborda um tema que eu adoro: amizade. A amizade é muito preciosa e importante pra mim, e ver como a mancada de amigos pode ser perdoada mexeu muito comigo, por razões pessoais.

Druk: Another round

Duas coisas me marcaram profundamente nesse filme: Primeiramente, é um filme que eu considero cria de ByungChul Han, celebrando a diversão, a negatividade saudável (leiam sociedade do cansaço!) e o álcool. Sim, uma dose pequena de bebida alcoólica diária. O filme defende uma lógica aparentemente contra-produtiva tão rara de ser retratada em produções estadunidenses e nos dá momentos bem divertidos. Ele também foge de uma coisa que me irrita: a culpa cristã pra deixar as consequências de escolhas que naturalmente precisamos tomar na vida ainda mais pesadas do que são. Em segundo lugar, uma coisa pequena que ficou na minha cabeça e tem casado com as observações que eu tenho feito sobre a masculinidade em outras culturas: este é um filme sobre amigos homens, mas a gente não vê o hétero top padrão na tela. Que eu me lembre, não tem nenhuma piada machista, os amigos são próximos e carinhosos com os outros (mesmo sãos, não é em consequência apenas do álcool) e embora tenham lá seus problemas e defeitos humanos,  mostram uma masculinidade muito mais maleável e aberta à sensibilidade. Obviamente, algumas das questões do filme tem relação justamente com o fato de serem  seus personagens principais homens, mas ainda assim, não é o macho brasileiro ou o herói estadunidense que vemos na tela: são só seres humanos com defeitos e qualidades.

Wolfwalkers



Outra animação LINDA, LINDA, LINDÍSSIMA! É outro filme sobre amizade mas também com uma mensagem muito forte a favor da natureza e da valorização dos povos originários como preservadores do ambiente. A história ainda nos relembra algo muito importante: nós SOMOS PARTE da natureza; a sociedade é que nos separou do mais óbvio e natural, criando ao redor de nós cidades, ambientes opressores baseado no trabalho sem fim, no controle através da religião. Além disso, esse longa mostra um protagonismo feminino compartilhado, mostrando como deveria ser a verdadeira sororidade, apesar das rusgas de criança entre as personagens principais. É também bem matriarcal e decolonial e mostra como o cristianismo foi extremamente opressor historicamente. Se eu fosse traduzir o título desse filme, ia ser "Meninas que correm com as lobinhas!". Um último ponto que me marcou: o filme é esteticamente muito bonito também! Em tempos de animações totalmente digitais, é bem interessante ver os recursos utilizados pra passar visualmente as impressões sensoriais dos lobos.


Pra ver o que mais eu falei sobre os filmes que pude assistir (consegui ver alguns curtas também, mesmo que não tenham entrado na lista, e outros que pude encontrar disponíveis na internet), tá aqui um fio no twitter com meus brevíssimos comentários sobre todos os que vi.

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